Publicado por: arielalmeida | 23 de agosto de 2011

retorno

andar costuma despertar lembranças. nelas, as quais apreciamos saudosamente quando boas e com receio quando não tão boas, há a certeza do acontecido. é quase bobagem dizer isso, mas além da morte o certo também pode ser o passado, esquecido ou não.

saudar o passado é reverenciar a uma história. não há cadência ou sobressalto, ele simplesmente o foi. Este ido, repito, é certo e merece justamente a retidão da certeza. quando saudoso, pode ser desejo de mais. quando receoso, medo de mais. e se simplesmente houver, pode não ter feito diferença.

e qual não é a surpresa quando percebemos que todo passado importa? o futuro depende do passado, d’outros idos, e não há tempo desligado, assim como não há pessoas separadas. é uma roda à qual pertencemos: ao parecer estática é porque estamos nos mexendo demais. quando tão rápida, a vida passa pelos nossos narizes, ainda que afoitos.

todas as rotas pelas quais passamos levam em conta o tempo. voltamos – o que necessariamente quer dizer essa palavra? – e continuamos, parece, estáticos. não é porque tudo mudou ou, ainda, porque nós o fizemos: não há tal percepção porque tudo muda aos poucos e continua igual.

o retorno é isso: dizer e não dizer, mas conseguir falar, porque há uma história.

Publicado por: arielalmeida | 12 de junho de 2011

a jornada

a jornada

caminhar já é traçar um passado. o arvoredo por onde passo observa meus movimentos e sabe não existir cura para o ido. apesar de podermos olhar para frente e para trás, pode ser difícil enxergar o agora, dentro. ou que o rápido ou devagar não importe para o caminho, porque ele é só a rua em que andamos.

talvez seja importante só dizer para irmos a um lado. este será escolhido, mesmo que signifique continuar na beirada, entre duas avenidas também atraentes. sim, acabaremos a tudo nos adaptando, mas não dói demais sempre? ou não?

imagino uma avenida com ciprestes onde o vento, frio, lembra-me da minha fragilidade, e o caminho, reto, diz-me que preciso continuar. para descobrir o sentido dela, prefiro não existir. privando o mundo de minha visão, saberei o que vai fazer diferença.

tomar um café pode ter muitos significados. eu gosto, sabe? e só gosto. e ao mesmo tempo é tudo. mas tenho tomado demais. e demais, assim, também dói. não a barriga, dói porque não dói mais. não sentir depois o que significa um café porque tomei demais é demais.

as avenidas ensinam. aprendi com elas que são bem diferentes da vida real. elas podem se entrelaçar, dançar entre elas, como se fossem partituras de um músico maluco. assim não é dor à toa. atordoa-me para eu enxergar melhor.

a jornada é um jornal. vamos ler?

Publicado por: arielalmeida | 14 de dezembro de 2010

o começo do fim

dia, vieste calmo como a criança pedindo história para ninar
prometendo a quietude e o passaredo a cuidar de nós.
contudo, deste-nos a noite, fria, inquieta, ímpia.
vimos seu intento, quisemos entender outro.

somos tempo a adornar o mundo,
solitos, inquietos, encantados.
solte-nos, pedimos-no,
é curto o tempo.

vigiar,
subir e
descer
mundo

é curta a vida.
tenha-nos, pedimos-no,
soltos, ainda que desbastados,
somos o mundo a adornar o tempo,

este que não requer intento, e ainda insistimos:
dê-nos o dia, quente, fátuo, límpido, régio, sem limites,
prometemos cuidar do tempo e deixar os pássaros a cantar.
vieste calma como a criança pedindo história para ninar, noite.

Publicado por: arielalmeida | 8 de junho de 2010

perdoa-me

é frio, o vento pela copa dos ciprestes desalmou-se.
calou-se ao perceber o cimo desabar,
sem a quem dar mãos ou abraçar no gelado sereno.

ainda digo, de rugosa certeza, tens meus braços, mesmo
na insalubre manhã de outono com a brisa cessada,
quando não enxergares mais estrelas adiante.

di-me, sois verdade, pura e real, do que representas?

digo-lhe que sim, sem titubeação, e ventarei
todas nossas melodias ainda que impresentes
ou perturbadas por atos imprudentes.

mesmo que semeadas as estradas,
com ou sem nossos sinais pelo andor,
pintarão as flores com a mesma cor

andarilhos saberão o que por ali passou
e repetirão a história nunca terminada,
ainda que não regresse encontrando música.

sinto saudades, desejo regressar a uma casa
com melodias transgredindo a porta
e fragrâncias orientais invadindo meu ser,

a madeira sólida e o aquecedor a óleo,
irresolutos por terem ido, calejam minha rotina.
traz-me de volta a estante onde punha nossos pertences.

leva-te a ti, pois a mim só restou outra,
não desvia para descobrir o que de mim é,
sua realidade bonita continua, perdura.

por favor, perdoa-me.

Publicado por: arielalmeida | 31 de maio de 2010

a água

tem cor, branca como as nuvens me olham.
e cheiro, puro como o do arvoredo.
lírica, cantaria conosco seu borbulhar.
colérica, terminaria-me como lenço rasgado.

daria-me voz se quisesse no agora gritar.
hoje só quero mágoa sem dor, sem sentir,
não sei o que me faz, a árvore ou o vento.
ainda que tropece no próximo fio, voarei,

seria a mim uma vida reservada
ou luzes monótonas a cobrir todos os véus?
tenho folhas, muitas, e tronco servil,
a correr pela vida, também ar, ímpio e fiel

beberei sem saber a próxima parada
ouvirei o canto que quiser me conter
a seda não me seduz, por ela passo incólume
ainda assim, rasga-me como faz na pedra.

Publicado por: arielalmeida | 11 de maio de 2010

obliquamente observo

sou laço que se fez sem saber.
ninguém me amarrou ou prendeu,
só quero saber as nuances d’outra corda
mesmo temendo não existir outra.

visito uma casa e percebo
o cheiro peculiar das gerações que ali habitaram.
e visto um cheiro para perceberem
olhem, sou do mesmo material que tudo.

há calor nas falanges dos ciprestes,
só o vejo com o vento a passar
isso me diz muito, só ouvi agora.
cantei e percebi minha voz outra.

temos voz e brio
por que tememos cantar
se a aurora nos convida
para dela apaixonarmos-nos

?

Publicado por: arielalmeida | 5 de março de 2010

disseste-me sim

e eu acreditara.

sou palhaço que ri da própria piada
mas chora ao ver uma criança maltratada
ou menina que come sorvete
só para disfarçar o sorriso contido.

de agora em diante, somos tomate e cebola
compartilhando o prato em que enfeitamos
a deixar satisfeito a alguém.
mas quem é esse?

disseste-me sim,

terminaste com minha aflição
como num toque de midas,
rapidamente acalmei a mente
e procurei os céus em meu escuro.

ouvi-lhe que talvez,

pode ser que eu não consiga te entender,
por favor, cuida de mim
como se a rosa não tivesse espinho,
ainda sou alma boba.

disse a ti que sim,

vou acreditar em meu e nosso mundo,
seremos pó e pedra
conjugados para acertar o barro
que nossos pés sempre pediram.

entenda que sim.

Publicado por: arielalmeida | 2 de março de 2010

lembranças

dizia, sem palavras, o pouco que restara
para remeter a cabeça aos ruins e bons momentos.
sem a prontidão d’alguém desejando uma nova vida
lembrara, sem ressalvas, o ontem como se fosse amanhã.

sim, ontem é amanhã; crê hoje pela manhã
como se à noite não faltasse abrigo.
desdizer não, só relembrar. a copa andava
como se faltasse arrimo para uma nova cena.

seria um espetáculo grandioso saber que a rima vive
incrustada no que chamam exatidão;
clame-se agora, posso ainda esquecer-me de ti.
ouça para que depois possamos falar.

sou o que dizem sonho. posso aparecer à noite
e também no dia de quem melhor acredita
nem sempre lembrarás que apareci ou até te fiz chorar
ainda assim, por favor, chame a mim.

Publicado por: arielalmeida | 21 de fevereiro de 2010

sentimentos

diferente.

despercebia como o dia estava,
qual a hora ou até se a vida continuava;
mãos tremiam e brandiam calor.
o mesmo no peito, que numa vez falhou
como se desabrochasse um alívio ao deixar correr.

disparou o coração, bondosamente,
soube eu quem realmente era.
uma confissão misteriosa aconteceu
ao dormir e acordar sem qualquer pesar.
era, irrompente, a primeira primavera.

calaria por um momento tudo
perceber o andar sem imediata explosão
faria a calma permanecer sem adoecer.
completaria cada dia com acordes livres
em música sem compasso, sem forma.

ouviu-se o coração, de súbito,
ao transcender sem exatidão
numa carreata de sonhos que colidiu
antes de ter, na vida, a redenção.
era, diletante, a segunda primavera.

andaria a apalpar a atroz cálida noite.
insone, o outono aprochegaria-se de mim
de sopetão, cairiam minhas folhas
e derramaria toda seiva ao vê-lo chegar
com perversa mania a me desfazer.

não teria coração, verdade,
faltava-me olhos para melhor ver,
bondade para perdoar o nada
quando precisava de um espelho.
era, caudaloso, o primeiro outono.

a volta, digo, a redenção,
viria após provação vital.
perdoaria aos poucos a eclosão
que de mim tirou parte e a restaurou
como se me preparasse outra surpresa.

pulsaria cauteloso o coração, agora cálido,
retomando o adágio, agora andante,
e tornaria-me eu toda vez nova peça
de uma música que não sabia tocar.
era, reverberante, o fim de um ciclo.

Publicado por: arielalmeida | 30 de julho de 2009

digo-lhe mais

hoje, noite crua,
digo à rua, contigo estou;
sem dano, também rezo-te o bem
o de querer só o carinho e a compreensão.

digo também que és da forma bela,
a que todo cenário deveria apreciar:
até o das desgraças e o da tristeza
porque depois há avenida mais límpida.

peço perdão, contudo.
não pude ser-lhe o que no cerne desejei
nem o que foi sonhado ao clamar
rezo-te o bem.

disse-lhe insinceridades
quando invoquei toda sorte de plateias;
perdoa-me, por favor, só quis bendizer
sou tua honra e tua discórdia.

clamo por honra porque,
de gratidão,
mesmo na discórdia
hei de te respeitar.

e pela discórdia
por sermos um ser e outro
sempre com a honra
do, mesmo árduo, bendizer.

pode, toca as cortas
como o chão, tão formoso,
ou o sol, lá brilhoso,
mas di-me mais.

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