vinde comigo

Fevereiro 12, 2009 por arielalmeida

escrevia com o perdão das próprias palavras. teria, enquanto encerava a última peça de metal, a idéia de descansar para, logo mais, trabalhar. e a mesma coisa todo dia, todo dia a mesma coisa. a rotina afarfalhava sua alma como fosse de seu feitio procurar propriamente as mesmas coisas a se fazer. não que fosse ingrata, a vida – ela repousava sobre um lustroso passado, mesmo que os fungos tenham tomado conta do presente.

cada caneta teria seu significado e não é de sempre que vemos algo tão pessoal se entalhar em um mero acessório. era o que se tinha, dizia-se. antes as coisas, falavam, eram mais simples, mais diretas, discretas. os passos, regulares, conseguiam contar quantos eram até o regresso ao lar. a dor que tomava conta do peito dizia-se mágoa, já pétrea, do que fazia há anos. e não saía, refutava-se a deixar o abrigo que fortemente a salutou até o último momento.

liberdade? mais um acessório, não há arbítrio de completo voo, ele também sofre a ação da gravidade. cai, recai sobre vossa pele o uniforme que jogara para cima. é porque de tudo o que podemos pensar e agir, só temos o mundo como limite. e se tivéssemos outros mundos para agir sobre, quiçá a vida pudesse ser mais vida e o uniforme menos uniforme.

os entalhos também se mostram em cada rosto. tudo aquilo que recaiu é por ele demonstrado, temos pouco a esconder. o pedido de comida, ressalto, só é verdadeiramente atendido quando há um sorriso verdadeiro na face de quem a entrega e não tem muitas pessoas com vontade de fazê-lo. não é que seja mau augúrio, é a tendência da permanência à inércia. bom é que somos aptos a sorrir a qualquer momento que desejamos.

ah, como queria uma ajuda com o que faço, novamente, hoje. de verdade, ninguém tem como ajudar: o cipreste continuará lá, devo resgatá-lo ou deixá-lo viver? entrelinhas, as boas, dizem-me que o café deve ser servido quente, assim como gosto. e é verdade: esperem-no esfriar, melhor que ter de requentá-lo. a ansiedade do amanhã, como ela é! buscar o novo parece ser um ar novo, apesar de não. ides convosco, acessórios, metais que já não o são mais, por favor, vinde comigo.

espero que gostem do café. foi esquentado às dez. e tem de ser quente, senão não presta. todo dia a mesma coisa, obrigado.

intensidade

Fevereiro 11, 2009 por arielalmeida

o copo era cheio. resplandecia as gotas de suor caídas de meu receio – sinto, era aquela hora. sim, desconhecia a novidade, ventos soprando já deixavam de me alertar a vinda de tempestades momentos depois. era, verdade, não estava: naquele momento nada o encheria ou o esvaziaria a não ser meus olhos.

a cada momento esquecia mais o sentido das coisas, sentia-me amorfo com tantos turbilhões acontecendo em minha cabeça ao mesmo tempo. lembrei que as aulas de kung-fu me deixavam assim, sem preocupações com o que sentiria por dentro, só o expressado pelos meus movimentos. seria responsável pela vanguarda do sentimento. isso é intenso.

preocupações são malévolas: as gotas sentiam-se mais densas e brilhantes a cada tempo passado – esse eu já não media em segundos, minutos ou horas. beijo, venha, preciso de um calmante. de hoje continuamos com pouco, nossa memória também brinca com nossos símbolos. maligna!

já antes de sentir um beijo desenhava-o, traçava como se a um desenhista sua obra mais complexa nascesse da forma mais simples – mas ansiosamente. ao fazê-lo mudava o redemoinho de lugar, dava vida a um sonho que sabia já ter morrido, saía com a incompreensão na cabeça sem perceber o laço antes de, claro, indevidamente sentir.

minha vida pedia mais, tudo em nome da intensidade. o de antes trovejado hoje seria uma sóbria maré alta e amanhã um sereno escorrido pela casca da árvore mais incólume que poderia imaginar. na verdade, não teria tempo – nunca teríamos tempo para tudo.

e tudo assim continua até não vislumbrarmos mais céu para gerar raios – o universo acabara! ganhamos, assim, um enorme momento de quietude onde o tufão quer andar mas não encontra asas. aí resolvemos pensar que muito do que era intenso também era ilusório, falso. dói mas prefiro viver tudo a chegar à conclusão de que teria de viver mais ou gostaria de mais vida quando já se está na hora de partir.

o bom? o sereno escorrido tem gotas densas e brilhantes. as árvores anteparam todo o vento, sentem-no muito mais que nós. a maré alta vem da lua que representa um verdadeiro furacão em nossa vida. e o que é incólume precisa se defender do impuro. se experienciar tudo isso, posso ir embora.

we’re leaving

Janeiro 30, 2009 por arielalmeida

let’s throw our belongings away
and give place to a new time
the sun cannot shine more
in this place we are in.

pack the most important,
that is, our hearts -
and we will be leaving
in an hour at most.

we’ll perceive
this time things are different
and there will be light asunder

you know, ’tis possible
to make the most important thing
called happiness. do you?

as mãos

Janeiro 30, 2009 por arielalmeida

era tarde, ainda assim queria um pouquinho mais saber que você está bem. por isso liguei, faz falta te dizer um oi, mas eu não sabia o que dizer senão oi. espero que me perdoe, vamos nos cuidar, vamos nos cuidar. é por ti, sabes? corro, é bom ser criança contigo. vamos andar.

era hoje que punha as mãos em você e achávamos a melhor coisa do mundo. e foi. de meu sorriso desmedido veio uma lágrima, faltou pouco para te dizer que sentia te perder. e era algo natural, não poderia reclamar. com tudo aquilo, eu não poderia ser a única coisa que você deveria se preocupar, agradeço ficar ao seu ladinho.

depois de nos virmos assim, nus, da forma mais íntima que alguém pode perceber, o abraço já contava ser outra coisa. era uma forma de eu conhecer mais um pouquinho de você, entrar em seu mundinho e perceber que o sorriso que eu fazia era uma coisa bonita que você adorava muito.

e eu amo você, com essas mãos aprendi que, apesar de tudo, você permeia a alegria e me faz feliz, mesmo que eu tenha de sorrir por ti. não que eu seja mãe ou pai, mas você só não sabia dizer para o mundo que queria rir e aquilo só foi acabando um pouquinho comigo. agora me faz sorrir um pouco?

a poesia descarada

Janeiro 11, 2009 por arielalmeida

dança, hoje tem baile toda a noite.
ela fala prontamente, há música!
sem ritmo não mostra sua cara,
só é desgosto quando se faz viva.

sim, não precisamos de tambores.
a pele virgem já serve para o propósito!
descarando-se, é o brilho dela a servir de batucada
e o seu andor o ritmo desvairado.

perplexa, ela não sabe dizer ainda se sim ou se não.
todos perguntam, ninguém realmente se importa;
brandir a palavra desvenda pouco mais que o fogo emanado,
é preciso ecoar por dentro para revelar o gosto.

devagar – só vagar pode ser preciso, vamos viajar.
o descaramento acontece aí, a forma importa mais sentida
que simplesmente aparecida.

rápido, não podemos perder tempo. entendamos,
o descaramento nos exige que apareçamos
mesmo que queiramos sentir o que é.

e agora, cara luz, di-me, por favor.
desvenda o que é isso, tudo são duas coisas
e uma e uma ao mesmo tempo.

descara-te; juro que prometo, encaro-te.

na vida e na morte

Janeiro 10, 2009 por arielalmeida

vida é um conjunto de farelos. eles juntam-se para formar uma imagem sólida de algo que pode, abruptamente, terminar. não que seja frágil, até é, mas é mais também. inidônea, nos trava batalhas conosco: o que seria viver ou, ainda, viver bem? ninguém tem a fórmula mágica. nesse rincão, contudo, não devemos ter receio de morrer: é ela, a morte, a certa e benéfica – sim, nos ensina e nos guarda do que julgamos ruim porque é ela um parâmetro.

morte é a falta de farelos. na obscuridade, assim mesmo, podemos observar luzes estrondosas: o renascimento só acontece quando se escurece a vida, daí aprendemos, apreendemos. sem capacidade de ser falsete, a música ganha tom lúdico, mesmo que fúnebre, os tambores rufarão para anunciar outro nascimento. sem ter algo que ceda lugar, o mundo pára. e isso é a morte morrida: o rio cessa, as árvores fenecem, sementes não podem brotar. a morte matada tem fundamento porque travou-se batalha, criou-se e refestelou-se até entregar o espaço à nova semente.

somos, na vida, morte. ao batalhar, conquistamos e cedemos espaços para crescer e desejar felizes natais, felizes anos novos. conheces sua própria imagem? ela pode esfaquear você. ou, sim, enaltecer a vitrine. mas só depois de ter esfaqueado ao menos um pouquinhozinho: não existe comida grátis, devemos aprender a pescar, também a nós próprios.

temos de escolher alguma coisa para nossa vida: deixar ela ser tomada pelo ar não tem muita graça; o ar é refrescante mas não nos ensina que podemos também mudar um pouco de direção, ele faz por nós. daí a chance de vivermos ou morrermos ou ambos: afinal, a vida é a morte e a morte é a vida. mutuamente. completos e incompletos, revezam-se para nos confundirmos um pouco mais, ainda bem.

e viver significa cultivar o que temos, enaltecer o que nos deram, regar com a água o jardim nem sempre verde, preservarmos-nos para que amanhã exista, cortar a grama do quintal, sujar um pouquinho a casa.

morrer já é acostumarmo-nos sem o que temos, agradecer o que tivemos, adubar o jardim para que um dia na esperança ele verdeie, ter o hoje e quiçá preparar um amanhãzinho, comer a grama, limpar a casa e derreter-se no sol.

sempre escolhi morrer. e, depois, viver.

upkeep

Dezembro 20, 2008 por arielalmeida

a morning rain comes to the window
and I can’t see it all.
life keeps from wearing clothes off

secrets are like heaven
there are no curtains
yet you still have to hide

smile while there are teeth
they will someday wear out
seldom things desire happy endings

come into my roof
watch the sky going asleep
I want to hide you from the clouds

they watch us relentlessly fading and smirk
like everything was known somehow
but we are going to stay

let’s walk between the fields
the edges must say something
as do the clouds.

no faith comes from the believer
if there’s no sense of deliverance
tell him it is wrong

to believe in fables
- not that they didn’t exist -
but the sun shines upon us all

a cloudy day does not make sense
when we talk about evil
faith may not exist

or sometime there must be
as we have to believe
it has to come by, the relief, relife.

one does not have to know
I’ll take care of you
even if you don’t know it.

o beijo

Dezembro 19, 2008 por arielalmeida

presenteia a boca
com um sorriso
e diz comigo

sei, palavras hoje não bastam.
reage; sou incólume
mas desejo, sem subterfúgios.

vejo um vale incandescente.
é como meu olho fechado diz
nele sempre acreditarei.

abraça-me
para que voemos deste lugar
mesmo não prometendo te levar

a vida tem de ser incondicional
e assim é um beijo
na realidade você só o concede.

e pouco saberemos da vida
mesmo você me seguindo
ou vice-versa.

saibamos para entender
num beijo tudo morre e renasce
como faremos daqui em diante.

gira, vento,
sua prole deve seguir o beijo
ele corre mais.

não, não é surpresa
queria convidar-te
a morrer comigo.

o choro

Dezembro 15, 2008 por arielalmeida

a gota transparente
faz travessia pela fronte deformada
sem conhecer sua tirania.

rastro. É chão difícil,
parece que a água era terra
e até a terra me perdeu.

qualquer sorriso é forçado
e o domingo? onde está a família?
é indolor, mas fere.

parece a vida cair,
ela desdenha, infiel:
sois aliada da morte!

torturai, peito, você é só um escudo
carrega toda minha terra
só esperanço se recomeçar

e aqui não quero o controle
nem o seu
deixe tudo estar

o trem só vem assim
pára! nem mais um passo
não sei se gostarei

não me reconhecer
deve ser pior que dormir
para sempre.

mas vem, sorri,
atravessa e regozija,
um quinhão é meu.

o mundo

Dezembro 9, 2008 por arielalmeida

segue a vida, natureza. por favor, lembre-me, pertences na realidade impertencem. cabe, a cada, um pouco dessa terra. sem titubear, ela me atendeu esse pedido encarecido. e descobrimos os mecanismos de tudo sem qualquer feito, apenas entendendo: a morte, carcomida, simboliza ciclos das coisas passando pela terra. esse eu li, senhor. mais um pouco de terra e meu credo desterra, desterra, sim. felizardo do que se joga um punhado dela para perceber que, no fim, vai virar farelo.

acaba de morrer um punhado e nascer outro. assim se forma a fadada e vil natureza, sim. acredito na trindade, a santa, ou talvez noutra. tanto faz, tanto faz? pode ser vil cultura: tem coisa que simplesmente acontece, entender seria outro caminho, outra aventura. repugna-me reconhecer nossa incapacidade para ensinar ou aprender certas coisas, tudo tem de reciclar: mesmo a gente.

desse farelo sei pouco e sei muito. aqui designada uma magia, o fado hoje canta que a alegria vem da tristeza: simplesmente inexiste alegria sem antes termos uma certa tristeza; natureza e tristeza. e somos a alegria.

é como se não tivéssemos a liberdade de nos expressarmos: di-me, di-me, di-me o que tu és: a acentuada expressão me é alegre, sim. e temos de ser o contraponto, quando não o ponto, alguém tem de dizer sim ou não. a natureza é imberbe, ainda não diz: temos de dizer mesmo lembrando toda a história onde ela manda em nós e não sabemos de nada. também ela diz, fala, canta – canta onde nós só sabemos olhar.

fomos designados a um barroquismo no qual não devemos pertencer: qual seria a graça da escolha sem a opção de errar? achas, senhor, que vossa vontade também não seria a nossa? ou que a nossa não seria a sua, se tudo é uma coisa só? ou por que resolve dizer que cairão vários ao meu lado sendo que ali tenho muitos amigos? ah, a vida deverá tomar conta: carcoma, sim, é para onde estamos indo. por isso sou serelepe pecador.

mundo errado não existe, ele é certo. talvez coisas estejam erradas, isso o tempo nos mostra: o céu hoje resolve ficar menos límpido porque fazemos coisas ruins, é justo. o irmão ao lado falece e poucos vão ao funeral, talvez justo. eu vou. e há cor de roupas para usarmos? ele gostava de cores alegres. aliás, agora nem deve importar: impertence.

não devemos saber o que pertencer: só a que pertencer basta. se for insuficiente, exumar um corpo que pretende ficar no caixão não resolverá.