era um outono maravilhoso – seu começo, na verdade – as folhas ainda começavam a se desprender das árvores e nos dar noção de renovação. as figueiras emprestavam parte de suas vidas às ruas e adornavam-nas conforme podiam, e os ciprestes sempre verdes. os corredores formados pelos ciprestes, tão imperiais, protegiam nossa conversa de quem quisesse ouvir.
a rua, bem mantida, também era um bom caminho para seguir: trazia o misto de melancolia e quietude ao diálogo reservado, ele assim herdando um ar sóbrio mas, ainda assim, permitindo nosso espanto e questionamento se preciso. as mãos, quentes, tocavam-se diretamente somente pelos pulsos – equipadas por luvas finas, para evitar parte do frio, estavam em incompleta solitude. ambos ainda não se identificavam como um parte do outro.
e Anna pergunta:
– Ariel, o que é o vento?
sem pronta resposta, para explicar d’onde ele vem, é necessário tergiversar para esclarecer:
– ele é uma flor. seu pólen pelo mundo voa, sempre espalhando novas incarnações para sentirmos todas as variações possíveis. aquela figueira centenária em frente ao seu restaurante favorito o sente há mais de cem anos em todos os possíveis climas que já aconteceram nesse século.
Anna entendeu que ele é e, ao mesmo tempo, não é uma só coisa. a flor – ou as flores, tanto faz – deixa ou deixam seus rastros como no amor, onde é preciso deixar voar para crescer junto: se um resolver prender o outro, este não aprende a voar ou espalhar suas incarnações-facetas numa relação que deve ser o universo e não uma simples caixinha de surpresas.
e a resposta para a pergunta já foi respondida:
– e para eu cuidar de você, não posso deixá-la presa. assim como para você cuidar de mim. não podemos ser flores em uma estufa, onde só somos observados. é verdade, assim a flor cresce bonita, mas não pode viver fora do casulo que é esta estufa. então é preciso ser, de vez em quando, ferido, para mostrar a real beleza. assim como acontece com crianças: parasitam mães antes de nascerem, vilipendiam seus recursos para crescerem em úteros maternos e, finalmente, nascem e mostram suas belezas. este sacrifício natural é, também, bonito. mostra o quanto quem é mãe fará pela criança.
amor também sofre assaltos. é o que torna a flor, o vento, o coração, mais bonito. as feridas, outros vilipêndios rompantes aos sentimentos, alheios ou não, também criam expectativas para a chegada de algo belo. dependem do tempo. este tem a tarefa de abrandar as marcas no coração, mas nunca as apagar para que ele conserve a memória do que foi paixão.
– é por isso, Anna, que eu a deixo voar. você pode não entender hoje, ou talvez eu também não entenda, mas sempre pensarei em nosso bem, agora e depois. e por isso nossa incompleta solitude de hoje, ela nos fará maiores que hoje.
– Ariel, e se um dia eu quiser ser sua flor na estufa? lá fora é frio. essas nossas luvas nos protegem um do outro. queria poder entrar num canto aconchegante no mundo com você.
a pergunta foi avassaladora, cortara parte de sua alma. precisou respirar e fechar, mesmo que um pouquinho, os olhos agora espectadores dos resquícios de outra ilusão. o peito, agora abalroado por um arpão pouco maior que o que poderia sentir, lembrou serem mundos diferentes os de ambos. retoma a conversa:
– somos diferentes. toda pessoa será diferente de outra, mundo que for. achamos que não, mas você, ao dormir – mesmo junto a mim – tem abrigado, de volta, seu próprio vento. cipreste para mim tem um sentido, para você outro. Anna, o vento é tanto realidade quanto ilusão. não deve ele arrancar o sentido de cada, mas ser justamente a barreira a definir ambos, para que sempre nos encontremos um no outro e não nos percamos em ambos. se você se perder em mim, estará presa ao meu crescimento. se eu também me perder em você, estamos condenados a não entendermos o que no futuro virá. ou a não nos entendermos porque não saberemos o que cada pessoa é.
e Anna resolve parar de caminhar quando chegam novamente em frente ao seu restaurante favorito. abraça Ariel e, como se cinco horas fossem cinco segundos, de olhos fechados e suspiro dado, finalmente consegue propor:
– Ariel, este é meu restaurante favorito. aceita jantar comigo?
– entendeste, na essência, o que eu quis dizer. eu te amo.
entram no restaurante e pedem suas refeições prediletas.