Posts de Abril, 2008

flores ao vento

Abril 20, 2008

era um outono maravilhoso – seu começo, na verdade – as folhas ainda começavam a se desprender das árvores e nos dar noção de renovação. as figueiras emprestavam parte de suas vidas às ruas e adornavam-nas conforme podiam, e os ciprestes sempre verdes. os corredores formados pelos ciprestes, tão imperiais, protegiam nossa conversa de quem quisesse ouvir.

a rua, bem mantida, também era um bom caminho para seguir: trazia o misto de melancolia e quietude ao diálogo reservado, ele assim herdando um ar sóbrio mas, ainda assim, permitindo nosso espanto e questionamento se preciso. as mãos, quentes, tocavam-se diretamente somente pelos pulsos – equipadas por luvas finas, para evitar parte do frio, estavam em incompleta solitude. ambos ainda não se identificavam como um parte do outro.

e Anna pergunta:

– Ariel, o que é o vento?

sem pronta resposta, para explicar d’onde ele vem, é necessário tergiversar para esclarecer:

– ele é uma flor. seu pólen pelo mundo voa, sempre espalhando novas incarnações para sentirmos todas as variações possíveis. aquela figueira centenária em frente ao seu restaurante favorito o sente há mais de cem anos em todos os possíveis climas que já aconteceram nesse século.

Anna entendeu que ele é e, ao mesmo tempo, não é uma só coisa. a flor – ou as flores, tanto faz – deixa ou deixam seus rastros como no amor, onde é preciso deixar voar para crescer junto: se um resolver prender o outro, este não aprende a voar ou espalhar suas incarnações-facetas numa relação que deve ser o universo e não uma simples caixinha de surpresas.

e a resposta para a pergunta já foi respondida:

– e para eu cuidar de você, não posso deixá-la presa. assim como para você cuidar de mim. não podemos ser flores em uma estufa, onde só somos observados. é verdade, assim a flor cresce bonita, mas não pode viver fora do casulo que é esta estufa. então é preciso ser, de vez em quando, ferido, para mostrar a real beleza. assim como acontece com crianças: parasitam mães antes de nascerem, vilipendiam seus recursos para crescerem em úteros maternos e, finalmente, nascem e mostram suas belezas. este sacrifício natural é, também, bonito. mostra o quanto quem é mãe fará pela criança.

amor também sofre assaltos. é o que torna a flor, o vento, o coração, mais bonito. as feridas, outros vilipêndios rompantes aos sentimentos, alheios ou não, também criam expectativas para a chegada de algo belo. dependem do tempo. este tem a tarefa de abrandar as marcas no coração, mas nunca as apagar para que ele conserve a memória do que foi paixão.

– é por isso, Anna, que eu a deixo voar. você pode não entender hoje, ou talvez eu também não entenda, mas sempre pensarei em nosso bem, agora e depois. e por isso nossa incompleta solitude de hoje, ela nos fará maiores que hoje.

– Ariel, e se um dia eu quiser ser sua flor na estufa? lá fora é frio. essas nossas luvas nos protegem um do outro. queria poder entrar num canto aconchegante no mundo com você.

a pergunta foi avassaladora, cortara parte de sua alma. precisou respirar e fechar, mesmo que um pouquinho, os olhos agora espectadores dos resquícios de outra ilusão. o peito, agora abalroado por um arpão pouco maior que o que poderia sentir, lembrou serem mundos diferentes os de ambos. retoma a conversa:

– somos diferentes. toda pessoa será diferente de outra, mundo que for. achamos que não, mas você, ao dormir – mesmo junto a mim – tem abrigado, de volta, seu próprio vento. cipreste para mim tem um sentido, para você outro. Anna, o vento é tanto realidade quanto ilusão. não deve ele arrancar o sentido de cada, mas ser justamente a barreira a definir ambos, para que sempre nos encontremos um no outro e não nos percamos em ambos. se você se perder em mim, estará presa ao meu crescimento. se eu também me perder em você, estamos condenados a não entendermos o que no futuro virá. ou a não nos entendermos porque não saberemos o que cada pessoa é.

e Anna resolve parar de caminhar quando chegam novamente em frente ao seu restaurante favorito. abraça Ariel e, como se cinco horas fossem cinco segundos, de olhos fechados e suspiro dado, finalmente consegue propor:

– Ariel, este é meu restaurante favorito. aceita jantar comigo?

– entendeste, na essência, o que eu quis dizer. eu te amo.

entram no restaurante e pedem suas refeições prediletas.

o que dói e o que não dói

Abril 17, 2008

voltar do meu mais novo trabalho hoje, cansativo. falar com meu amor e ele novamente me machucar, fatigante. tomar o café logo depois de voltar, reconfortante. receber boas notícias à noite, em casa, aconchegante.

agüento, sim, todo tipo de cansaço. mesmo até o torpor, todo cansaço tem seu motivo. para isso, ainda tenho [e sempre terei] coração. a toda obra, não há artífice que não funda seu suor à pedra. e o calor que o cansaço gera é uma espécie de concha a nos isolar de nossos próprios pensamentos.

só que não quero, de novo, machucar meu coraçãozinho. ele, mesmo grande, não agüenta tantas rachaduras porque assim meu sangue jorra. a vida nem sempre nos dá toda resistência que precisamos, sabe? a certa hora vou precisar de um colo e se você não me der, meu peito vai doer, doer, e terei vontade de chorar.

se você não estiver aqui a me acudir para quando tiver vontade de chorar, vou me recludir a um canto, esperando a hora de encostar em seu peito e, novamente, dizer adeus ao mundo um pouquinho. fechar os olhos na solidão não funciona, preciso de carinho também.

quando eu chorar e você não estiver presente, quero que saiba: tenho saudades de você. e não vai adiantar imaginar você aqui ao lado ou você me acariciando, me confortando. você, você, você.

isso é um sinal, porque hoje não pode ser eu, eu, eu. escute, pode ser que seja verdade. e isso dói. muito. pode ser que doa diferente para você, mas minha cara retorcida quando o peito incha demais e eu não agüento é, é assim mesmo.

eu espero. e pode ser paranóia de minha mente, mas talvez você não acredite que o peito doa. ou que seja mais difícil segurar as lágrimas que segurar sua mão quando você não entende. e isso dói. muito.

o que não dói tenho visto pouco em você. me entende – ou vamos guinar para caminhos diferentes. e isso eu quero evitar, não quero mudar tanto minha vida.

vou beber meu último gole de café de hoje.

[des]encontro

Abril 5, 2008

seu jeito de me dizer que as coisas não vão bem me conquista a cada vontade de não me falar para me poupar. não existe melhor que a confiança, simplesmente inexiste. poder contar a você que chorei, encostar sua cabeça em meu ombro e fazer carinho, só por fazer.

algumas coisas só vivendo mesmo para entendermos. a luta pelo desenvolvimento requer muitos sacrifícios, amor. as coisas não irem bem são só parte do que chamamos crescer. não é regra. a vida irá crescer e florescer, só precisamos agüentar.

ao contrário do que poderá achar, eu não irei poupar você do que é necessário viver. que viva, ninguém fará isso por você. e isso você não pode fazer comigo. tem trocas que doem muito, essa é uma delas. e eu só quero que você viva.

seja o que bem [lá no fundo da alma] quiser ser, só terá meu encorajamento. eu já sei, e você também, quem é [a essência sua], deixe ir. nosso encontro deve ser um desencontro. depois vamos ver o que acontece. eu espero.