Posts de Novembro, 2008

a ilha e o continente

Novembro 29, 2008

mordiscava um pedaco de canela quando andava pela avenida principal. não sabia, ao certo, o que teria a vida a oferecer, até porque psicografava na mente alguma coisa que desconhecia, não tinha certeza, era simplesmente incerto por natureza – a vida nao fora fácil nem difícil, simplesmente fora. mas ah, e se a vida fosse fácil, amor?

- não, a vida não nos pode ser fácil, amor. ela nos é garantida com a certeza de que teremos desafios, mesmo que sejamos sempre sozinhos. se fôssemos somente sozinhos, não teríamos desafios – nao teríamos com quem compartilhar as dificuldades -, seguiríamos somente. e a ilha solteira iria ficar cada vez maior, maior, maior e nós cada vez menores. quando a ilha tem companhia, ela se torna um detalhe, ínfimo, minúsculo, crepuscular, porque a vida tem espaço para brilhar. eu quero viver com você, sei que nossa vida pode brilhar de qualquer jeito.

tomou seus braços e andou junto. era tarde. ventava, verdade, mas ainda tinha um restinho de sol que amenava o frio vindouro. amanhã, pensava, seria um dia de descobertas, ou quiçá hoje mesmo: soubera da boca de sua companhia que a vida simplesmente acontece e que a dificuldade só era criada por nós próprios, mas é porque a vida tem de brilhar, não porque ela tem de ser difícil para que caminhemos para um degrau acima.

andava, é verdade. e não se sabia quem conduzia a quem, o caminho era certo. era também certo que teriam alguém para contar com pelo resto de suas vidas, a caminhada acontecia sem que descolorissem suas folhas de papel nem que destruíssem seus castelos – que não tinham, não era preciso, o algodão das nuvens era mais verdadeiro porque nunca desaparecia por completo.

depois guardou o pedaço de canela ao lado da cama que cuidadosamente construíra ao longo de sua (ainda jovem) vida. pensava, sim, ser a cama um dos mais importantes elementos também porque fosse ela o leito eterno por algum infortúnio natural estaria em berço esplêndido. e não estendia o esplendor só pela cama, cuidara sempre da janela para que o céu apreciado fosse o mais límpido que pudesse ver.

- amor, entendi agora. o mundo se tornou um monte de ilhas solteiras e pouca gente quer andar de barco para encontrar a mais próxima ou verdadeira só porque os céus ameaçam cair sobre suas cabeças se o barco rumar longe demais. andei sem querer por um bom tempo para encontrar você, você faz com que a ilha seja um continente e a mesma ilha ao mesmo tempo. e em seus braços quero chorar, rir, divagar, pestanejar, pecar, tanta coisa. tanta, tanta coisa.

- não é que eu queira, acontece. a ilha sempre vai ser um continente porque somos gotas de água querendo navegar o mundo. hoje, amanhã. não sou ninguém especial, só entendi um pouquinho do que acontece nas nossas cabeças. e queria que você também pudesse compartilhar esse entendimento, essa vida. essas vidas. temos tanta vida dentro de nós, descubramos, descubramos.

partiram para casa, refestelaram-se aos abraços. sempre amanhã vai ser diferente, sempre ontem será diferente mesmo parecendo igual, sempre hoje ninguém sabe, perceberam que o abraço lhes contava todo o dia sem que uma palavra fosse dita. era setembro.

joc d’esperit

Novembro 20, 2008

há um sorriso no ar; poucos devem reconhecê-lo, menos ainda descrever seu semblante que nos é somente uma brisa interina: substitui o que chamamos de voz, nos traz à tona para perto de algo que vai acontecer, nos dá a sensação imperativa para, sim, prestarmos atenção.

e voz é algo insubstituível: qualquer pessoa pode me dizer que me ama; mas não será precisamente a sua – ou, até mesmo, a minha. mas dizem-me: sim, temos várias vozes dentro de nós, não? sim, temos, só que não sabemos a quem se referem, como elas se falam, ou até se estão simplesmente aos gracejos conosco.

a grande mescla entre nós e o mundo na verdade é o toque do intocável: somos engraçadamente parte de algo que não temos acesso, de algo que não saberemos, por mais que saibamos. só que sim, podemos recorrer. mesmo sendo enormemente insensíveis.

não há caridade, sinto. percebo um jogo a se formar, só que ninguém quer apostar: pagar como? sem moeda para ambos que não têm nada, a paga fica intransparente, incógnita. bem, é que não têm preço essas coisas do espírito, é tudo ou nada pela certeza imiscuída pelo espaço que também desconhecemos.

seria tarde para dizer que é possível apostar, não se cobra: o vento nunca parodia, sem nos sentirmos lesados tendemos a seguir só sua criatividade. tanto quanto é difícil convencer a quem não quer acreditar n’algo, a quem não quer aceitar balas de estranhos.

credo, lembro, remete à parcialidade: a toda hora tomamos partido d’alguma coisa, só esqueceram de avisar-nos que sofreríamos com nossas escolhas: jogam conosco, só vemos passado melhor no futuro e o futuro nunca conta como será, ele só tenta anunciar-se.

tanto é que cada caderno conta uma história diferente e felizmente eles não têm propriamente um tempo: somos nós mesmos os que pomos tempo às coisas e depois (já entoando um tempo) nos vemos discutindo se o tempo era aquele mesmo.

ama-me: não há impontualidade no que não tem tempo, não somos feitos do hoje. só lembra de mim, o que fizeres entenderei se souber as coisas como coisas e o tempo como o tempo: sim, sommos um pouco de ambos e às vezes nos confundimos – mas só ama: havemos de vencer qualquer tempo.

inspiração

Novembro 19, 2008

o jogo que o universo nos põe a fazer não seria, de todo, fatal para nosso bem-estar. aliás, ele é uma das coisas que simplesmente são. são minúcias a serem percebidas, é verdade, mas também felizmente podemos viver sem algumas delas (mesmo que daí desprovamos a vida de certas cores).

a cor a que me refiro aqui é uma universal, não precisamos enxergá-la; sequer senti-la: ela é um pigmento do qual todas as coisas são mais ou menos constituídas e está, nesse suor, o que pode compor algo que desejamos fazer, ver, tocar, gostar.

entre nós, verdadeiramente, não há jogo porque tudo nos é finito: é impossível desconhecer as chances. aí mora o charme: como fazer o finito parecer infindável? lembro-me assim do café, ah, ele, sim, me parece infindável.

me allegro quando há algo diferente no que deveria ser igual: não é que a busca seja incessante, mas é que o infinito resolveu mostrar-se um pouco por u’a faceta e ela talvez só eu tenha percebido, assim como cada um tem, ao menos, chance de fazê-lo.

e na andança sempre estarei: há sempre o que se ritmar para, sim, cobrir e descobrir. lembremos, o coberto nem sempre nos é desconhecido e o descoberto nem sempre é óbvio.

me beija. sei, amor, nem preciso dizer amor, na luz não há o que discutir: por que, então, existe o coberto e o descoberto? ou será que, já a nós não há essa noção? minha noção, aliás, desaparece quando o coração é ouvido e a mão encontra a sua.

fechemos os olhos, canção melhor não há senão a do não cantar, as flores só saberão que é hora quando já tiver sido; por ora, agradeço-as, elas sabem muito bem que são muito bonitas; só não anunciam, isso é muito bonito: nada as denuncia.

façamos música.

mudar; mutar

Novembro 17, 2008

corre em nossas veias a vontade. a simples vontade. não, ela não admite plural, tem de ser única.  até porque ela nos faz sermos como tal. íntima, ela nos intima a também conhecermo-nos assim como fomos concebidos. não é à toa, os bebês choram.

passa, sempre, o tempo. nem sempre como desejamos, é sempre que o desafio nos esclarece que ele só passará quando estivermos verdadeiramente conosco. o chão, também, é uma de nossas referências e não pode ser tão perdido nem tão encontrado.

vem, sempre, o norte. certo é, às vezes incerto por nossa natureza. e não há o que nos esclareça; não por ser ímpio (até porque não o é) mas somos, a nós próprios, nossos piores inimigos também: qual dos nortes?

anda comigo, as folhas estão caindo. não, não é que o cipreste vá ruir: outra primavera virá, mesmo que eu não saiba quando. e é junto que o tempo passa melhor. não, não é mais rápido: se for para assim o ser, prefiro deixar-te – tudo tem o seu tempo, não desapropriemos as coisas dele!

vem, já é sol. o café, c’a fé, esquentará nosso dia. olha, somos pão e leite. para crescer, precisamos decidir e poder: alguém nos fez, nos tirou para o mundo, não o decepcionemos. melhor ainda, somos também o mundo. di-me, o que não podemos fazer?

obrigado por vir comigo.

a quietude

Novembro 17, 2008

não, amor, quero dizer muita coisa quando não falo. se você perceber, ainda quero dizer a mesma coisa que quando nos conhecemos quando te olho e simplesmente sorrio. e hoje tudo é diferente, claro. mas também igual porque não mudei e mudei. te amo da mesma forma. percebo que ela é só mais. sim, posso dizer que te amo mais. mas também posso te dizer que te amo da mesma forma, do mesmo jeitinho.

quando alguma coisa não vai bem contigo, primeiro pego você em meu colinho. ele, sozinho, diz-me muito, muito sobre o que passamos. depois peço-lhe uma palavra. se eu só te perguntasse, teríamos muito ruído. não o som de quando você suspira perto de meu peito, o som de nosso sorriso: sim, quando você sorri, perceba, amor, tem um som bonito que você escuta; o som de seus cabelos passando pelos meus.

muito prefiro não falar, assim, para também não nos acostumarmos com o ruído: se nos dissermos tudo, pouco perceberemos e pouco contemplaremos. amo escutar sua respiração enquanto você dorme em meu peito. espero que da mesma forma aprecie escutar meu coração em paz quando com você. é que só na quietude sei se alguma coisa acontece ou não.

muito vou preferir não falar que te amo, quero que a quietude lhe diga. mesmo porque é só nela que podemos realmente nos amar. dorme comigo, por favor, dir-te-ei muito se quiseres escutar. entende meu beijo – ele também te diz. ou meu beija, me olha; hei de entender. chora comigo, também; já escutou as lágrimas rolarem pelo rosto? imagina, sim, o som delas mesclando-se com minha roupa.

na quietude poderei dizer o que realmente importa. oito horas.