mordiscava um pedaco de canela quando andava pela avenida principal. não sabia, ao certo, o que teria a vida a oferecer, até porque psicografava na mente alguma coisa que desconhecia, não tinha certeza, era simplesmente incerto por natureza – a vida nao fora fácil nem difícil, simplesmente fora. mas ah, e se a vida fosse fácil, amor?
- não, a vida não nos pode ser fácil, amor. ela nos é garantida com a certeza de que teremos desafios, mesmo que sejamos sempre sozinhos. se fôssemos somente sozinhos, não teríamos desafios – nao teríamos com quem compartilhar as dificuldades -, seguiríamos somente. e a ilha solteira iria ficar cada vez maior, maior, maior e nós cada vez menores. quando a ilha tem companhia, ela se torna um detalhe, ínfimo, minúsculo, crepuscular, porque a vida tem espaço para brilhar. eu quero viver com você, sei que nossa vida pode brilhar de qualquer jeito.
tomou seus braços e andou junto. era tarde. ventava, verdade, mas ainda tinha um restinho de sol que amenava o frio vindouro. amanhã, pensava, seria um dia de descobertas, ou quiçá hoje mesmo: soubera da boca de sua companhia que a vida simplesmente acontece e que a dificuldade só era criada por nós próprios, mas é porque a vida tem de brilhar, não porque ela tem de ser difícil para que caminhemos para um degrau acima.
andava, é verdade. e não se sabia quem conduzia a quem, o caminho era certo. era também certo que teriam alguém para contar com pelo resto de suas vidas, a caminhada acontecia sem que descolorissem suas folhas de papel nem que destruíssem seus castelos – que não tinham, não era preciso, o algodão das nuvens era mais verdadeiro porque nunca desaparecia por completo.
depois guardou o pedaço de canela ao lado da cama que cuidadosamente construíra ao longo de sua (ainda jovem) vida. pensava, sim, ser a cama um dos mais importantes elementos também porque fosse ela o leito eterno por algum infortúnio natural estaria em berço esplêndido. e não estendia o esplendor só pela cama, cuidara sempre da janela para que o céu apreciado fosse o mais límpido que pudesse ver.
- amor, entendi agora. o mundo se tornou um monte de ilhas solteiras e pouca gente quer andar de barco para encontrar a mais próxima ou verdadeira só porque os céus ameaçam cair sobre suas cabeças se o barco rumar longe demais. andei sem querer por um bom tempo para encontrar você, você faz com que a ilha seja um continente e a mesma ilha ao mesmo tempo. e em seus braços quero chorar, rir, divagar, pestanejar, pecar, tanta coisa. tanta, tanta coisa.
- não é que eu queira, acontece. a ilha sempre vai ser um continente porque somos gotas de água querendo navegar o mundo. hoje, amanhã. não sou ninguém especial, só entendi um pouquinho do que acontece nas nossas cabeças. e queria que você também pudesse compartilhar esse entendimento, essa vida. essas vidas. temos tanta vida dentro de nós, descubramos, descubramos.
partiram para casa, refestelaram-se aos abraços. sempre amanhã vai ser diferente, sempre ontem será diferente mesmo parecendo igual, sempre hoje ninguém sabe, perceberam que o abraço lhes contava todo o dia sem que uma palavra fosse dita. era setembro.