segue a vida, natureza. por favor, lembre-me, pertences na realidade impertencem. cabe, a cada, um pouco dessa terra. sem titubear, ela me atendeu esse pedido encarecido. e descobrimos os mecanismos de tudo sem qualquer feito, apenas entendendo: a morte, carcomida, simboliza ciclos das coisas passando pela terra. esse eu li, senhor. mais um pouco de terra e meu credo desterra, desterra, sim. felizardo do que se joga um punhado dela para perceber que, no fim, vai virar farelo.
acaba de morrer um punhado e nascer outro. assim se forma a fadada e vil natureza, sim. acredito na trindade, a santa, ou talvez noutra. tanto faz, tanto faz? pode ser vil cultura: tem coisa que simplesmente acontece, entender seria outro caminho, outra aventura. repugna-me reconhecer nossa incapacidade para ensinar ou aprender certas coisas, tudo tem de reciclar: mesmo a gente.
desse farelo sei pouco e sei muito. aqui designada uma magia, o fado hoje canta que a alegria vem da tristeza: simplesmente inexiste alegria sem antes termos uma certa tristeza; natureza e tristeza. e somos a alegria.
é como se não tivéssemos a liberdade de nos expressarmos: di-me, di-me, di-me o que tu és: a acentuada expressão me é alegre, sim. e temos de ser o contraponto, quando não o ponto, alguém tem de dizer sim ou não. a natureza é imberbe, ainda não diz: temos de dizer mesmo lembrando toda a história onde ela manda em nós e não sabemos de nada. também ela diz, fala, canta – canta onde nós só sabemos olhar.
fomos designados a um barroquismo no qual não devemos pertencer: qual seria a graça da escolha sem a opção de errar? achas, senhor, que vossa vontade também não seria a nossa? ou que a nossa não seria a sua, se tudo é uma coisa só? ou por que resolve dizer que cairão vários ao meu lado sendo que ali tenho muitos amigos? ah, a vida deverá tomar conta: carcoma, sim, é para onde estamos indo. por isso sou serelepe pecador.
mundo errado não existe, ele é certo. talvez coisas estejam erradas, isso o tempo nos mostra: o céu hoje resolve ficar menos límpido porque fazemos coisas ruins, é justo. o irmão ao lado falece e poucos vão ao funeral, talvez justo. eu vou. e há cor de roupas para usarmos? ele gostava de cores alegres. aliás, agora nem deve importar: impertence.
não devemos saber o que pertencer: só a que pertencer basta. se for insuficiente, exumar um corpo que pretende ficar no caixão não resolverá.