vida é um conjunto de farelos. eles juntam-se para formar uma imagem sólida de algo que pode, abruptamente, terminar. não que seja frágil, até é, mas é mais também. inidônea, nos trava batalhas conosco: o que seria viver ou, ainda, viver bem? ninguém tem a fórmula mágica. nesse rincão, contudo, não devemos ter receio de morrer: é ela, a morte, a certa e benéfica – sim, nos ensina e nos guarda do que julgamos ruim porque é ela um parâmetro.
morte é a falta de farelos. na obscuridade, assim mesmo, podemos observar luzes estrondosas: o renascimento só acontece quando se escurece a vida, daí aprendemos, apreendemos. sem capacidade de ser falsete, a música ganha tom lúdico, mesmo que fúnebre, os tambores rufarão para anunciar outro nascimento. sem ter algo que ceda lugar, o mundo pára. e isso é a morte morrida: o rio cessa, as árvores fenecem, sementes não podem brotar. a morte matada tem fundamento porque travou-se batalha, criou-se e refestelou-se até entregar o espaço à nova semente.
somos, na vida, morte. ao batalhar, conquistamos e cedemos espaços para crescer e desejar felizes natais, felizes anos novos. conheces sua própria imagem? ela pode esfaquear você. ou, sim, enaltecer a vitrine. mas só depois de ter esfaqueado ao menos um pouquinhozinho: não existe comida grátis, devemos aprender a pescar, também a nós próprios.
temos de escolher alguma coisa para nossa vida: deixar ela ser tomada pelo ar não tem muita graça; o ar é refrescante mas não nos ensina que podemos também mudar um pouco de direção, ele faz por nós. daí a chance de vivermos ou morrermos ou ambos: afinal, a vida é a morte e a morte é a vida. mutuamente. completos e incompletos, revezam-se para nos confundirmos um pouco mais, ainda bem.
e viver significa cultivar o que temos, enaltecer o que nos deram, regar com a água o jardim nem sempre verde, preservarmos-nos para que amanhã exista, cortar a grama do quintal, sujar um pouquinho a casa.
morrer já é acostumarmo-nos sem o que temos, agradecer o que tivemos, adubar o jardim para que um dia na esperança ele verdeie, ter o hoje e quiçá preparar um amanhãzinho, comer a grama, limpar a casa e derreter-se no sol.
sempre escolhi morrer. e, depois, viver.