intensidade

By arielalmeida

o copo era cheio. resplandecia as gotas de suor caídas de meu receio – sinto, era aquela hora. sim, desconhecia a novidade, ventos soprando já deixavam de me alertar a vinda de tempestades momentos depois. era, verdade, não estava: naquele momento nada o encheria ou o esvaziaria a não ser meus olhos.

a cada momento esquecia mais o sentido das coisas, sentia-me amorfo com tantos turbilhões acontecendo em minha cabeça ao mesmo tempo. lembrei que as aulas de kung-fu me deixavam assim, sem preocupações com o que sentiria por dentro, só o expressado pelos meus movimentos. seria responsável pela vanguarda do sentimento. isso é intenso.

preocupações são malévolas: as gotas sentiam-se mais densas e brilhantes a cada tempo passado – esse eu já não media em segundos, minutos ou horas. beijo, venha, preciso de um calmante. de hoje continuamos com pouco, nossa memória também brinca com nossos símbolos. maligna!

já antes de sentir um beijo desenhava-o, traçava como se a um desenhista sua obra mais complexa nascesse da forma mais simples – mas ansiosamente. ao fazê-lo mudava o redemoinho de lugar, dava vida a um sonho que sabia já ter morrido, saía com a incompreensão na cabeça sem perceber o laço antes de, claro, indevidamente sentir.

minha vida pedia mais, tudo em nome da intensidade. o de antes trovejado hoje seria uma sóbria maré alta e amanhã um sereno escorrido pela casca da árvore mais incólume que poderia imaginar. na verdade, não teria tempo – nunca teríamos tempo para tudo.

e tudo assim continua até não vislumbrarmos mais céu para gerar raios – o universo acabara! ganhamos, assim, um enorme momento de quietude onde o tufão quer andar mas não encontra asas. aí resolvemos pensar que muito do que era intenso também era ilusório, falso. dói mas prefiro viver tudo a chegar à conclusão de que teria de viver mais ou gostaria de mais vida quando já se está na hora de partir.

o bom? o sereno escorrido tem gotas densas e brilhantes. as árvores anteparam todo o vento, sentem-no muito mais que nós. a maré alta vem da lua que representa um verdadeiro furacão em nossa vida. e o que é incólume precisa se defender do impuro. se experienciar tudo isso, posso ir embora.

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