vinde comigo

By arielalmeida

escrevia com o perdão das próprias palavras. teria, enquanto encerava a última peça de metal, a idéia de descansar para, logo mais, trabalhar. e a mesma coisa todo dia, todo dia a mesma coisa. a rotina afarfalhava sua alma como fosse de seu feitio procurar propriamente as mesmas coisas a se fazer. não que fosse ingrata, a vida – ela repousava sobre um lustroso passado, mesmo que os fungos tenham tomado conta do presente.

cada caneta teria seu significado e não é de sempre que vemos algo tão pessoal se entalhar em um mero acessório. era o que se tinha, dizia-se. antes as coisas, falavam, eram mais simples, mais diretas, discretas. os passos, regulares, conseguiam contar quantos eram até o regresso ao lar. a dor que tomava conta do peito dizia-se mágoa, já pétrea, do que fazia há anos. e não saía, refutava-se a deixar o abrigo que fortemente a salutou até o último momento.

liberdade? mais um acessório, não há arbítrio de completo voo, ele também sofre a ação da gravidade. cai, recai sobre vossa pele o uniforme que jogara para cima. é porque de tudo o que podemos pensar e agir, só temos o mundo como limite. e se tivéssemos outros mundos para agir sobre, quiçá a vida pudesse ser mais vida e o uniforme menos uniforme.

os entalhos também se mostram em cada rosto. tudo aquilo que recaiu é por ele demonstrado, temos pouco a esconder. o pedido de comida, ressalto, só é verdadeiramente atendido quando há um sorriso verdadeiro na face de quem a entrega e não tem muitas pessoas com vontade de fazê-lo. não é que seja mau augúrio, é a tendência da permanência à inércia. bom é que somos aptos a sorrir a qualquer momento que desejamos.

ah, como queria uma ajuda com o que faço, novamente, hoje. de verdade, ninguém tem como ajudar: o cipreste continuará lá, devo resgatá-lo ou deixá-lo viver? entrelinhas, as boas, dizem-me que o café deve ser servido quente, assim como gosto. e é verdade: esperem-no esfriar, melhor que ter de requentá-lo. a ansiedade do amanhã, como ela é! buscar o novo parece ser um ar novo, apesar de não. ides convosco, acessórios, metais que já não o são mais, por favor, vinde comigo.

espero que gostem do café. foi esquentado às dez. e tem de ser quente, senão não presta. todo dia a mesma coisa, obrigado.

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