Publicado por: arielalmeida | 20 de dezembro de 2012

vem

entre um passo e outro há um tempo. não sei como medi-lo, mas ele passa como se algo mudasse a cada instante. os passos são como o espaço entre árvores. dá até para esperar qual será a próxima, mas não sei como é a copa dela nem o que vou encontrar andando.

e ele mudou, o tempo. é porque talvez meus anseios sejam outros, a caminhada também. aliás, nela já não espero mais companhia, porque há caminhos nos quais uma certa solitude é saudável. mas anda comigo, ainda que só. sim, não há tempo, só a amplidão – sem espera.

aí, na instantaneidade, eu não sei mais quanto tempo esperar para fazer alguma coisa. é como num beijo cálido, não sei quantos instantes durou, o que fiz ou o que disse. ou no olhar de canto, que eu não sei nada do que aconteceu aqui ou ali nem o porquê. me espera, eu vou entender.

quando eu vejo seu retrato, antigo mas atual, o coração bate um tiquinho mais forte. acho que entendo alguma coisa do que eu esperava. ou do que espero. dói porque é antigo e atual. mas faz bem porque alguma coisa que mudou em mim tem explicação. posso te esperar?

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Publicado por: arielalmeida | 11 de junho de 2012

um orvalho na janela

oi. sou o orvalho que insiste molhando sua janela. estou lá, lívido, e continuo. verdade, você tenta me secar, mas volto porque estou dentro de você. não estou aqui para te cegar. quero te proteger, eu caio pelos campos e sempre sofro com o sol.

não, suas mãos não podem me levar para um copo. alguém vai me tomar. não, seu cabelo não vai cheirar a mim. seu creme é mais cheiroso. só me deixe ir e morrer, porque faço isso todo dia. eu quem me ceguei, porque não consigo ver pelo meu próprio vapor.

eu seco. assim, estou livre de tudo, pois no ar posso voar e visitar o mundo. minha música pode ser ácida, porque pego toda a poluição que as pessoas deixam, mas ainda assim morro acompanhado, ainda que sozinho.

eu molho. assim, entro em contato com tudo, pois visito a todos quando voo. e então minha música lhes é doce, porque me encontro desajeitado, mas ainda assim morro sozinho, ainda que acompanhado.

seco e molho. não somos só uma coisa. só um orvalho e alguém me assistindo na janela.

Publicado por: arielalmeida | 20 de maio de 2012

As viagens

volto logo. fui há não sei quanto. a viagem é um tempo novo, a medida se perde. quando a gente está longe de casa ou não sabe o que é casa, sempre é uma aventura sair e voltar. aquele sentido de não pertencer, sabe?

vi pessoas e coisas novas. paisagens mudaram de sentido para mim porque viajar e retornar nunca te leva para o mesmo lugar. é mesmo, e quando se muda desse jeito, como é que vamos saber no que tornamo-nos? só tem um jeito: andar mais. e, quem sabe, mais rápido. a vida é uma montanha russa naturalmente. a gente só não percebe porque tenta deixar ela certinha, em linha reta.

e então perdi-me para reencontrar-me de novo. serve dizer isso?

quando renascemos, o que pode acontecer quando se viaja, também desconhecemos a nova realidade. eu não renasci no sentido literal, mas deve ser mais ou menos assim, estranho, como se ainda não houvesse a definição do que é futuro, como se o passado tivesse sido de uma forma limpo.

daí só existe praticamente o presente, porque algumas dores do passado se foram e algumas esperanças do futuro também. e é como se tivéssemos de redesenhar o nosso manequim, já que não cabemos mais nas mesmas roupas. e não é que se engordou ou emagreceu, só mudou de configuração.

sinto saudade não sei do que. mas vou descobrir. nascemos para isso: descobrir.

Publicado por: arielalmeida | 23 de agosto de 2011

retorno

andar costuma despertar lembranças. nelas, as quais apreciamos saudosamente quando boas e com receio quando não tão boas, há a certeza do acontecido. é quase bobagem dizer isso, mas além da morte o certo também pode ser o passado, esquecido ou não.

saudar o passado é reverenciar a uma história. não há cadência ou sobressalto, ele simplesmente o foi. Este ido, repito, é certo e merece justamente a retidão da certeza. quando saudoso, pode ser desejo de mais. quando receoso, medo de mais. e se simplesmente houver, pode não ter feito diferença.

e qual não é a surpresa quando percebemos que todo passado importa? o futuro depende do passado, d’outros idos, e não há tempo desligado, assim como não há pessoas separadas. é uma roda à qual pertencemos: ao parecer estática é porque estamos nos mexendo demais. quando tão rápida, a vida passa pelos nossos narizes, ainda que afoitos.

todas as rotas pelas quais passamos levam em conta o tempo. voltamos – o que necessariamente quer dizer essa palavra? – e continuamos, parece, estáticos. não é porque tudo mudou ou, ainda, porque nós o fizemos: não há tal percepção porque tudo muda aos poucos e continua igual.

o retorno é isso: dizer e não dizer, mas conseguir falar, porque há uma história.

Publicado por: arielalmeida | 12 de junho de 2011

a jornada

a jornada

caminhar já é traçar um passado. o arvoredo por onde passo observa meus movimentos e sabe não existir cura para o ido. apesar de podermos olhar para frente e para trás, pode ser difícil enxergar o agora, dentro. ou que o rápido ou devagar não importe para o caminho, porque ele é só a rua em que andamos.

talvez seja importante só dizer para irmos a um lado. este será escolhido, mesmo que signifique continuar na beirada, entre duas avenidas também atraentes. sim, acabaremos a tudo nos adaptando, mas não dói demais sempre? ou não?

imagino uma avenida com ciprestes onde o vento, frio, lembra-me da minha fragilidade, e o caminho, reto, diz-me que preciso continuar. para descobrir o sentido dela, prefiro não existir. privando o mundo de minha visão, saberei o que vai fazer diferença.

tomar um café pode ter muitos significados. eu gosto, sabe? e só gosto. e ao mesmo tempo é tudo. mas tenho tomado demais. e demais, assim, também dói. não a barriga, dói porque não dói mais. não sentir depois o que significa um café porque tomei demais é demais.

as avenidas ensinam. aprendi com elas que são bem diferentes da vida real. elas podem se entrelaçar, dançar entre elas, como se fossem partituras de um músico maluco. assim não é dor à toa. atordoa-me para eu enxergar melhor.

a jornada é um jornal. vamos ler?

Publicado por: arielalmeida | 14 de dezembro de 2010

o começo do fim

dia, vieste calmo como a criança pedindo história para ninar
prometendo a quietude e o passaredo a cuidar de nós.
contudo, deste-nos a noite, fria, inquieta, ímpia.
vimos seu intento, quisemos entender outro.

somos tempo a adornar o mundo,
solitos, inquietos, encantados.
solte-nos, pedimos-no,
é curto o tempo.

vigiar,
subir e
descer
mundo

é curta a vida.
tenha-nos, pedimos-no,
soltos, ainda que desbastados,
somos o mundo a adornar o tempo,

este que não requer intento, e ainda insistimos:
dê-nos o dia, quente, fátuo, límpido, régio, sem limites,
prometemos cuidar do tempo e deixar os pássaros a cantar.
vieste calma como a criança pedindo história para ninar, noite.

Publicado por: arielalmeida | 8 de junho de 2010

perdoa-me

é frio, o vento pela copa dos ciprestes desalmou-se.
calou-se ao perceber o cimo desabar,
sem a quem dar mãos ou abraçar no gelado sereno.

ainda digo, de rugosa certeza, tens meus braços, mesmo
na insalubre manhã de outono com a brisa cessada,
quando não enxergares mais estrelas adiante.

di-me, sois verdade, pura e real, do que representas?

digo-lhe que sim, sem titubeação, e ventarei
todas nossas melodias ainda que impresentes
ou perturbadas por atos imprudentes.

mesmo que semeadas as estradas,
com ou sem nossos sinais pelo andor,
pintarão as flores com a mesma cor

andarilhos saberão o que por ali passou
e repetirão a história nunca terminada,
ainda que não regresse encontrando música.

sinto saudades, desejo regressar a uma casa
com melodias transgredindo a porta
e fragrâncias orientais invadindo meu ser,

a madeira sólida e o aquecedor a óleo,
irresolutos por terem ido, calejam minha rotina.
traz-me de volta a estante onde punha nossos pertences.

leva-te a ti, pois a mim só restou outra,
não desvia para descobrir o que de mim é,
sua realidade bonita continua, perdura.

por favor, perdoa-me.

Publicado por: arielalmeida | 31 de maio de 2010

a água

tem cor, branca como as nuvens me olham.
e cheiro, puro como o do arvoredo.
lírica, cantaria conosco seu borbulhar.
colérica, terminaria-me como lenço rasgado.

daria-me voz se quisesse no agora gritar.
hoje só quero mágoa sem dor, sem sentir,
não sei o que me faz, a árvore ou o vento.
ainda que tropece no próximo fio, voarei,

seria a mim uma vida reservada
ou luzes monótonas a cobrir todos os véus?
tenho folhas, muitas, e tronco servil,
a correr pela vida, também ar, ímpio e fiel

beberei sem saber a próxima parada
ouvirei o canto que quiser me conter
a seda não me seduz, por ela passo incólume
ainda assim, rasga-me como faz na pedra.

Publicado por: arielalmeida | 11 de maio de 2010

obliquamente observo

sou laço que se fez sem saber.
ninguém me amarrou ou prendeu,
só quero saber as nuances d’outra corda
mesmo temendo não existir outra.

visito uma casa e percebo
o cheiro peculiar das gerações que ali habitaram.
e visto um cheiro para perceberem
olhem, sou do mesmo material que tudo.

há calor nas falanges dos ciprestes,
só o vejo com o vento a passar
isso me diz muito, só ouvi agora.
cantei e percebi minha voz outra.

temos voz e brio
por que tememos cantar
se a aurora nos convida
para dela apaixonarmos-nos

?

Publicado por: arielalmeida | 5 de março de 2010

disseste-me sim

e eu acreditara.

sou palhaço que ri da própria piada
mas chora ao ver uma criança maltratada
ou menina que come sorvete
só para disfarçar o sorriso contido.

de agora em diante, somos tomate e cebola
compartilhando o prato em que enfeitamos
a deixar satisfeito a alguém.
mas quem é esse?

disseste-me sim,

terminaste com minha aflição
como num toque de midas,
rapidamente acalmei a mente
e procurei os céus em meu escuro.

ouvi-lhe que talvez,

pode ser que eu não consiga te entender,
por favor, cuida de mim
como se a rosa não tivesse espinho,
ainda sou alma boba.

disse a ti que sim,

vou acreditar em meu e nosso mundo,
seremos pó e pedra
conjugados para acertar o barro
que nossos pés sempre pediram.

entenda que sim.

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