Publicado por: arielalmeida | 2 de março de 2010

lembranças

dizia, sem palavras, o pouco que restara
para remeter a cabeça aos ruins e bons momentos.
sem a prontidão d’alguém desejando uma nova vida
lembrara, sem ressalvas, o ontem como se fosse amanhã.

sim, ontem é amanhã; crê hoje pela manhã
como se à noite não faltasse abrigo.
desdizer não, só relembrar. a copa andava
como se faltasse arrimo para uma nova cena.

seria um espetáculo grandioso saber que a rima vive
incrustada no que chamam exatidão;
clame-se agora, posso ainda esquecer-me de ti.
ouça para que depois possamos falar.

sou o que dizem sonho. posso aparecer à noite
e também no dia de quem melhor acredita
nem sempre lembrarás que apareci ou até te fiz chorar
ainda assim, por favor, chame a mim.

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Publicado por: arielalmeida | 21 de fevereiro de 2010

sentimentos

diferente.

despercebia como o dia estava,
qual a hora ou até se a vida continuava;
mãos tremiam e brandiam calor.
o mesmo no peito, que numa vez falhou
como se desabrochasse um alívio ao deixar correr.

disparou o coração, bondosamente,
soube eu quem realmente era.
uma confissão misteriosa aconteceu
ao dormir e acordar sem qualquer pesar.
era, irrompente, a primeira primavera.

calaria por um momento tudo
perceber o andar sem imediata explosão
faria a calma permanecer sem adoecer.
completaria cada dia com acordes livres
em música sem compasso, sem forma.

ouviu-se o coração, de súbito,
ao transcender sem exatidão
numa carreata de sonhos que colidiu
antes de ter, na vida, a redenção.
era, diletante, a segunda primavera.

andaria a apalpar a atroz cálida noite.
insone, o outono aprochegaria-se de mim
de sopetão, cairiam minhas folhas
e derramaria toda seiva ao vê-lo chegar
com perversa mania a me desfazer.

não teria coração, verdade,
faltava-me olhos para melhor ver,
bondade para perdoar o nada
quando precisava de um espelho.
era, caudaloso, o primeiro outono.

a volta, digo, a redenção,
viria após provação vital.
perdoaria aos poucos a eclosão
que de mim tirou parte e a restaurou
como se me preparasse outra surpresa.

pulsaria cauteloso o coração, agora cálido,
retomando o adágio, agora andante,
e tornaria-me eu toda vez nova peça
de uma música que não sabia tocar.
era, reverberante, o fim de um ciclo.

Publicado por: arielalmeida | 30 de julho de 2009

digo-lhe mais

hoje, noite crua,
digo à rua, contigo estou;
sem dano, também rezo-te o bem
o de querer só o carinho e a compreensão.

digo também que és da forma bela,
a que todo cenário deveria apreciar:
até o das desgraças e o da tristeza
porque depois há avenida mais límpida.

peço perdão, contudo.
não pude ser-lhe o que no cerne desejei
nem o que foi sonhado ao clamar
rezo-te o bem.

disse-lhe insinceridades
quando invoquei toda sorte de plateias;
perdoa-me, por favor, só quis bendizer
sou tua honra e tua discórdia.

clamo por honra porque,
de gratidão,
mesmo na discórdia
hei de te respeitar.

e pela discórdia
por sermos um ser e outro
sempre com a honra
do, mesmo árduo, bendizer.

pode, toca as cortas
como o chão, tão formoso,
ou o sol, lá brilhoso,
mas di-me mais.

Publicado por: arielalmeida | 8 de julho de 2009

vinho

tinha cor,
vermelha,
púrpura,
quando o conheci.

sorver,
devo?

hoje não mais,
bamboleiam-me, palavras,
estou insano,
ora, ainda sou eu.

que vida há
se não houver torpor
para nos esclarecer
o pouco que somos?

somos
ponto.

Publicado por: arielalmeida | 8 de julho de 2009

à espera

coisas passam
pelo horizonte
fátuo, digo,
sem pressa

mas vem depressa,
tenho de dizer-lhe
tantas diligentes coisas
bordejando minha mente.

de graça hoje banqueteio,
o vermelho, quase róseo,
pinta a cara desavergonhadamente
só porque quero dizer

ou falar, sabe;
solidão é cara
quando esperamos muito
do rosto límpido.

na paisagem
resta pouco
para sermos
só vento.

07/07/2009

Publicado por: arielalmeida | 8 de julho de 2009

o lenço

olhava
pela janela

seriam tantos mesmos
de tão difusas cores?

sem provas,
desaprova
o que não conseguia olhar

com vestes d’Helena
renascia sem maquilagem
o seco olhar
fitando
o mundo fora do lenço.

desconhece, assim,
paixão
sem que haja ação

ele é um vento
a conjugar
a si próprio, nu,
santo,
sem escrúpulos
na rua e fora dela.

03/07/2009

Publicado por: arielalmeida | 8 de julho de 2009

o pátio

brincava no pátio; não, não conhecia a criança, era tarde. saudávamo-nos como se sempre nos conhecêssemos, só para brincar. hoje ela pulava estrelinhas, sozinha, feliz! palmas saíam, tanto regozijo dizia mais: mamãe deve ter dado presente ou beijo ou ambos. e o sono não vinha porque era hora de brincar, ainda é, sempre é.

não pode ser tarde! nunca é, ainda não, deixe-me, sono, com beijo, sem beijo, ausente sem presente, digo, sem palmas. continuarei a brincar, direi tchauzinho, não sou ridículo ser, só sou sem saber ou até sabendo demais. não te conheço, não me importa o que dizes. tenho minha vida, sou feliz, olhe! sei ser concupiscente sem remanescer parco, não outorgo o que de outrem não tenha recebido de bom grado, sou complexo, tenho noção de quem sou, tenho mesmo.

somos o hoje e o amanhã, o fruto do ontem, o que nos disseram e o que dizemos. por dentro ou por fora, oportunamente ou não, de bom grado ou até sem agrado, sagrado seja nosso ser e diabólica seja nossa vida, do contrário ou não.

no final das contas, a criança é o adulto, o adolescente ambos e a vida uma só. e também as outras.

17/06/2009

Publicado por: arielalmeida | 3 de julho de 2009

ah, as decisões

sei que há algo errado.
tudo poderia ser melhor, principalmente eu.

mas o que seria da vida, céus, se tudo fosse branco e reto?
caminho o caminho rotundo;

só porque nele me é garantido o contido desafio para
  talvez
não chegar a seu fim,
  não o quero.

se em um olhar podemos ver tudo,
  prefiro dois.
se em dois tiver dúvidas,
  quererei um só
e dele já não sei.

também acho bonito não saber.

por isso tenho impulso e ao mesmo tempo não.
para a chuva carregar-me só ao chuviscar, não importa.

é pior quando não tenho o que decidir.

música, só quando alguém souber cantar:
senão é chuva seca.

certo que venha a água.

Publicado por: arielalmeida | 17 de abril de 2009

caminhando

rindo ainda falo andando. coisas acontecem dentro da minha cabeça e, mesmo não entendendo, olho para cima. o céu ainda consegue ser bonito, sem nuvens, chuviscava, estava só. ainda era, assim, tudo grandioso e melancólico.

e na promessa que fiz nenhuma nuvem iria chover e todos os céus clareariam. percebi que nelas, a escuridão também precisa, impávida, provar-me o quanto luzes não têm significado sem carinho ou bendizer.

tenho pouco tempo e te digo, um doce daqui a pouco comerei. e é só isso que sei, já basta. o amanhã grita muito para que eu o dê tanta atenção. quero hoje. só hoje.

Publicado por: arielalmeida | 12 de fevereiro de 2009

vinde comigo

escrevia com o perdão das próprias palavras. teria, enquanto encerava a última peça de metal, a idéia de descansar para, logo mais, trabalhar. e a mesma coisa todo dia, todo dia a mesma coisa. a rotina afarfalhava sua alma como fosse de seu feitio procurar propriamente as mesmas coisas a se fazer. não que fosse ingrata, a vida – ela repousava sobre um lustroso passado, mesmo que os fungos tenham tomado conta do presente.

cada caneta teria seu significado e não é de sempre que vemos algo tão pessoal se entalhar em um mero acessório. era o que se tinha, dizia-se. antes as coisas, falavam, eram mais simples, mais diretas, discretas. os passos, regulares, conseguiam contar quantos eram até o regresso ao lar. a dor que tomava conta do peito dizia-se mágoa, já pétrea, do que fazia há anos. e não saía, refutava-se a deixar o abrigo que fortemente a salutou até o último momento.

liberdade? mais um acessório, não há arbítrio de completo voo, ele também sofre a ação da gravidade. cai, recai sobre vossa pele o uniforme que jogara para cima. é porque de tudo o que podemos pensar e agir, só temos o mundo como limite. e se tivéssemos outros mundos para agir sobre, quiçá a vida pudesse ser mais vida e o uniforme menos uniforme.

os entalhos também se mostram em cada rosto. tudo aquilo que recaiu é por ele demonstrado, temos pouco a esconder. o pedido de comida, ressalto, só é verdadeiramente atendido quando há um sorriso verdadeiro na face de quem a entrega e não tem muitas pessoas com vontade de fazê-lo. não é que seja mau augúrio, é a tendência da permanência à inércia. bom é que somos aptos a sorrir a qualquer momento que desejamos.

ah, como queria uma ajuda com o que faço, novamente, hoje. de verdade, ninguém tem como ajudar: o cipreste continuará lá, devo resgatá-lo ou deixá-lo viver? entrelinhas, as boas, dizem-me que o café deve ser servido quente, assim como gosto. e é verdade: esperem-no esfriar, melhor que ter de requentá-lo. a ansiedade do amanhã, como ela é! buscar o novo parece ser um ar novo, apesar de não. ides convosco, acessórios, metais que já não o são mais, por favor, vinde comigo.

espero que gostem do café. foi esquentado às dez. e tem de ser quente, senão não presta. todo dia a mesma coisa, obrigado.

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